TIAGO CASANOVA

Gang do Cobre

Tiago Casanova

 

 

A cruz, do latim cruce, é um dos símbolos humanos e esotéricos mais antigos e usados por diversas religiões e práticas de fé. É uma figura geométrica formada por duas linhas que se cruzam num ângulo recto e contém inúmeras simbologias.



Esta instalação escultórica explora através de um conjunto de metáforas algumas das simbologias da cruz, nomeadamente a relação dos opostos (verticalidade / horizontalidade), que segundo a cultura popular e religiosa pode ter vários significados como: masculino / feminino; positivo / negativo; superior / inferior; tempo / espaço; activo / passivo; Sol / Lua; vida / morte; Espírito / matéria; etc.

Aqui, a utilização de materiais de valores opostos, a madeira velha e o cobre, pretendem criar um paralelismo entre a relação da Horizontalidade (Terra / Homem / Habitat) com a Verticalidade (Deus / o Divino / Fé).

A madeira velha e podre reflecte sobre a nossa condição humana que se vê consequentemente maltratada por catástrofes naturais, económicas, sociais e bélicas que nem a Fé num Deus ou Deuses pode justificar tal estado e sentimento de injustiça. A madeira, um importante elemento natural que torna possível a condição Humana (através do oxigénio que produz enquanto 'árvore'), mas também um importante material primário na construção e nos utensílios que tornaram possível a evolução do Homem, encontra-se aqui representada no seu estado final de vida, no estado de degradação e desaparecimento. Esta é a nossa condição de Ser corrompível e frágil, que vive e logo morre.

O cobre, o material metálico que se crê ter sido o primeiro a ser minerado e trabalhado pelo Homem há vários milénios atrás, é simbolicamente utilizado porque nos mostra aquilo que somos capazes de criar cientificamente, sendo o principal material condutor de electricidade, a energia que também nos pode dar vida e que simbolicamente pode ser equiparada à função do Sol, um elemento admirado e endeusado por diversas culturas ancestrais e religiosas. Aqui, o cobre é também utilizado nesta relação Vertical entre Homem e o Divino pois é um material de grande valor comercial, de tal modo que se pode equiparar também ao Ouro ou à Prata, materiais recorrentemente utilizados pela Igreja para a adoração ao Senhor. É não só uma crítica às práticas ostensivas / decorativas da Igreja num mundo cheio de pobreza, mas também uma conclusão pessoal: Na Fé, qualquer que seja essa Fé, o que interessa é o acto, a intenção e o pensamento, e não o utensílio, o símbolo ou o valor comercial de um material.

Esta é também uma crítica ao Homem que rouba e ao sistema que obriga homens a roubar. É uma crítica ao abusivo uso de recursos naturais, aos sistemas financeiros e comerciais que ao longo de milénios deixaram de ser através da troca mas sim do valor comercial especulativo de certos objectos, pertences e materiais. É uma crítica ao Gang do Cobre que rouba o material e simbolicamente rouba essa energia equiparada com o Deus Sol e que nos dá vida, mas também a todos nós que de uma maneira ou de outra fazemos parte de um sistema social, económico e religioso que é também à sua maneira um Gang do Cobre.



Esta instalação foi concebida para o Claustro do Mosteiro de Grijó, e insere-se no Projecto "Quem matou Joaquim de Melo?" (2013).

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