TIAGO CASANOVA

De Atenas a Hiroshima

Ana Matos



«É no âmbito epistemológico que a “selfie” introduz uma mudança substancial, pois transforma a atávica concepção da fotografia de um “isto aconteceu” para um “eu estava ali”.» — Joan Fontcuberta, “La furia de las imágenes”, Galaxia, Gutenberg, 2016


«From that day, I look at the world with the eyes of the people of Hiroshima.» — Kenzaburö Öe



Depois de uma trágica fatalidade que lesou de forma irreversível seu filho, Kenzaburö Öe viajou até Hiroshima à procura de uma catárse para o seu sofrimento. Ao fim de poucos dias, encontrou paz junto daquelas pessoas, assumindo “um sentido moral da existência” pela humanidade que aí sentiu, o que o levou, anos mais tarde, a afirmar que, desde aquele momento, passou a ver “o mundo com os olhos do povo de Hiroshima”. Sentir e ver, que se juntaram à grande sensibilidade, à consciência humanista, à força poética deste escritor japonês, galardoado com o Prémio Nobel de Literatura em 1994. Sentir e ver com cuidado, atentando aos detalhes, às pessoas, ao agora e ao que já foi, à memória e ao futuro, ao Eu e ao Outro, extravassando a “mundinho” hermético onde, às vezes, felizmente nem sempre, nos encerramos e anulamos o demais. No seu (ficcionado) Livro dos Conselhos, José Saramago, que a Kenzaburö Öe se juntou na Academia Nobel em 1998, dizia “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” É deste reparar que resulta a experiência do Outro, do tempo e do espaço, no lugar onde nos encontramos. É deste reparar que percebemos ou podemos tentar perceber o mundo.
Do alto dos seus 150 metros de altitude, construída por volta de 450 a.C, num monte rochoso, encontra-se a Acrópole de Atenas, visitada por milhares de pessoas a cada ano. Os caminhos que nos levam à “cidade alta” são quase de perigrinação pela busca da vista idílica, do pôr de-sol perfeito, de um “eu estive lá” que concentrasse toda a essência da visita a este  monumento dedicado à padroeira da cidade, Atena, deusa da sabedoria e das artes.

Só neste mês de Janeiro, poderemos estimar que foram registadas 69 619 fotografias, à média de uma por visitante1, muitas das quais em registo “selfie” que, como fundamenta Joan Fontcuberta, é o “triunfo do ego sobre o eros”, há um lado de ostentatação em concomitância com a comunicação de uma experiência, partilhada sobretudo nas e pelas redes sociais. Paremos uns minutos para pensar quantas destas pessoas olharam a paisagem em redor e Atenas a seus pés, quantas viram a imponência desta arquitectura e destas esculturas, quantas reparam que ao Partheon lhe faltam (alguns) dos mármores que, desde 1817, estão no Museu Britânico.
Ouvirão elas Melina Mercouri, ministra da Cultura da Grécia e uma das vozes mais activas contra aquilo que considerava um “saque”, ou as palavras “Go, ask thy bosom who deserves them most? / The law of Heaven and Earth is life for life, / And she who raised, in vain regrets, the strife” de Lord Byron, cada um, no seu tempo e à sua medida, reclamando o regresso dos mármores para o seu berço? Sentados no Monte Areopagus conseguirão ver, não só além do tempo, mas para cá do espaço, do espaço que, em comunidade, habitamos? Tiago Casanova, nascido na Madeira em 1988, formado em Arquitectura, recorre (também) à fotografia como veículo das suas preocupações sociais, com o território, a memória, a identidade pessoal e colectiva, não se presuma, porém, que o faz numa perspectiva moralista, antes como uma interrogação etnográfica, como uma (auto) crítica que propõe para que olhemos melhor o mundo e a nós mesmos. Destaco alguns exemplos, deste seu percurso, iniciado em 2006, e onde, desde um ponto de vista de conteúdo, se pode constatar a forma trasnversal como estes temas têm sido abordados, e de um ponto de vista formal como Tiago Casanova funde e expande os territórios da fotografia, instalação, video ou mesmo performance, recorrendo a diferentes suportes.

Em “Mnemonic ability of photography” (2012, distinguido com o Prémio BES Revelação), “An image is only an image for those who have no memory” (2016) ou “The Backup Project” (2018) estão subjacentes o próprio acto de fotografar e a sua relação com a memória, individual ou colectiva seja ela. A dicotomia Realidade/Ficção na interpretação da imagem fotográfica em “Expedition to Reality” (2015), ou o binómio Construir/Destruir, premissa da sua sensibilidade de arquitecto, em “Pearl” (2014). Os projectos do Gang do Cobre, o seu alter ego, enquadram-se nas suas preocupações com a identidade do território, o património, a cidade enquanto lugar colectivo com todas as suas idiossincrasias, as problemáticas que emergem de um turismo massivo, e onde destaco “Every wall is a statement” (2016) e “Very typical Perfect for stealing” (2016). Há já algum tempo que Tiago Casanova vem registando as selfies dos outros, como é o fora de cena, como as pessoas se comportam naquele momento em que querem dizer ao mundo “eu estive aqui”. Estiveram, sim, mas em que sentido? Procurando no dicionário, são inúmeras as acepções de “estar”, desde o “encontrar-se num sítio ou condição” ao “assistir”, passando por “condizer”. Porém a primeira delas anuncia desde logo o sentido que vai ao encontro das questões que “Status” (2019) nos poderá invocar: “ser num dado momento”. Colada sobre mármore, essa matéria que tarda milhões de anos a formar-se, trazendo consigo o peso do tempo, e que remete para o Ágora de Atenas, está uma fotografia a preto e branco, em que diversas pessoas tiram selfies. Umas estão de costas para paisagem, outras concentradas em fotografar(-se). Ambos encontram-se na pose e na posse da máquina fotográfica. Ambos buscam o “eu” em prol da vivência e da experiência circundante. O contexto passa a ser o “self”. Apoiada sobre o chão, a obra completa-se com uma película que simula os filtros do telemóvel, permitindo, pelas suas próprias características técnicas, que a imagem que vemos seja diferente consoante nos movemos em torno desta e em função da luz que recebe. A fotografia é também e sempre um acto autoral de interpretação da realidade, onde o olhar do fotógrafo determina o que ficará registado, e nesse sentido passou a ser o “real”.

Sim, do alto da Acrópole, com séculos de história, com saques e destruição, em momentos de glória do sucesso e de culto do conhecimento, dirão, diremos nós, que estamos, porventura sem o sermos na sua plenitude e perenidade. É fugaz o instante, é imediata a partilha, urge o próximo destino. “Status” invoca-nos a que, de Atenas a Hiroshima, também nós passemos a ver, olhar e reparar “o mundo com os olhos do povo de Hiroshima”.


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(1) De acordo com Hellenic Statistical Authority, em Janeiro de 2019, foram 69 619 os visitantes do Museu da Acrópole de Atenas.

Ana Matos
Curadora e directora da Galeria das Salgadeiras
Lisboa, Junho de 2019

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